quarta-feira, 27 de maio de 2015

“Submissão”, o livro
Juremir Machado da Silva
Meu amigo Michel Houellebecq está na crista da onda no Brasil. Sou velho. Uso gírias da minha juventude, palavras que só pessoas de certa idade utilizam. Falo "pequena" para me referir a uma "gata", que também chamo de "mina" e "broto". Houellebecq não sabe, mas está dando as cartas e jogando de mão por aqui. Vou explicar isso para ele quando nos encontrarmos. O seu livro "Submissão", tradução provocativa do termo "Islã", já está nas boas casas brasileiras do ramo. Como toda obra de Michel, é uma sátira política corrosiva, implacável e muito divertida. Tem forma e conteúdo. É algo que os escritores brasileiros atuais não compreendem e jamais praticam.
Sei que o leitor não se liga nessas mesquinharias editoriais, mas vai uma palhinha. A Cia. das Letras é a editora mais metida do país. É fashion. Os livros de Houellebecq saíram primeiro pela Sulina e depois pela Record. A turma fashion, por ignorância e mau gosto, não acreditava na literatura de Michel, um francês com mania de escrever simples, claro e de construir personagens que pensam. "Submissão" saiu pela Alfaguara, selo da Objetiva, que se fundiu com a Cia. das Letras, sob o controle desta. Michel Houellebecq finalmente virou autor da Cia. das Letras no Brasil. Que importância tem isso? Nenhuma. Salvo para os jornais de Rio de Janeiro e São Paulo, que só babam para autores da editora de Luís Schwarcz, e para certos jovens escritores, que vão, enfim, ler o melhor escritor satírico do mundo na atualidade. De repente, até aprendem um pouco.


"Submissão" deveria ter sido lançado na França no dia em que aconteceu o atentado ao jornal Charlie Hebdo. Michel Houellebecq, que satiriza a islamização da França, precisou suspender tudo e passar alguns dias escondido. Foi acusado por alguns de ajudar a incendiar os extremistas com seu humor politicamente incorreto. Em "Submissão", um partido muçulmano chega ao poder na França, em 2022. A Sorbonne, financiada por árabes, como um clube de futebol, vira Universidade Islâmica de Paris Sorbonne. O novo reitor tem mais de uma mulher. A mais jovem está no esplendor dos seus 15 anos de idade. Quando entrevistei Michel Houellebecq, em novembro de 2014, para o Caderno de Sábado do Correio do Povo, antes do lançamento do seu livro e do atentado contra Charlie Hebdo, ele me disse: "Vou botar fogo na França". Falava no sentido figurado. Sabia que o seu romance provocaria polêmicas inflamadas. Não deu outra. Michel é punk.
Qual foi a última vez que um romance brasileiro provocou polêmica e botou fogo no país? Acho que foi quando todo mundo ainda falava "broto", "pequena", "mina", "uma brasa, mora?" e a juventude queria mudar o mundo, botar a imaginação no poder, derrubar os generais, incendiar os quartéis, queimar sutiãs, rasgar bandeiras e botar o bloco na rua. Que livro foi esse? Não me lembro. Ando com sérios problemas de memória. Pensando bem, o último Michel Houellebecq brasileiro foi o mulato Lima Barreto. Faz algum tempo. Um século. Enquanto outro não aparece, que tal ler o genial "Submissão"?

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