quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O CONCEITO 'ALMA'

A alma: Sócrates, Platão e Aristóteles

1. Doutrina socrática sobre a alma.

Observação: Sócrates fazia filosofia através da relação dialógica com seus interlocutores, ele nada escreveu. Tudo o que se tem escrito sobre a filosofia socrática foi escrito por Platão, seu aluno; e pelo fato de Platão nunca ter negado o mestre, a filosofia socrática é platônica. Significa que a filosofia socrática sobre a alma é também a filosofia platônica.

1. Dualismo corpo - alma: Para Sócrates a alma se apresenta como uma substância específica imaterial (= espiritual), não composta (= simples), essencialmente distinta do corpo material.
2. Hierarquia das faculdades: A alma tendo a capacidade de exercer um comportamento ético é dotada,  de faculdades distintas e hierarquizadas: sentido, vontade dotada de liberdade e inteligência.
3. Especificidade da alma: A alma é simples porque é indivisível, diferente do corpo que se divide em partes, dotada de movimento próprio e de conhecimento.
4. Imortalidade da alma:
   
         Fedon de Platão:

- "Quais são (perguntou Sócrates) as coisas que são susceptíveis de decomposição? A propósito de que espécie de coisas devemos temer esse estado, e para que espécie de seres isso não acontece? Depois disso teremos ainda de examinar qual dos dois é o caso da alma, para finalmente, conforme o resultado que obtivermos, haurir daí confiança ou temor com respeito à nossa alma.

- É verdade (responde o outro interlocutor, Cebes).

- Não é, pois, às coisas compostas ou àquelas cuja natureza é composta, que cabe corresponder precisamente a composição? Mas, se acontece haver alguma coisa não composta, não é só a ela que convém, mais do que a qualquer outra coisa, o escapar a esse estado de decomposição.

- Sim, disse Cebes, - é o que penso, assim deve ser.

- Dizei-me então: Os seres que sempre se conservam imutáveis e sempre se comportam do mesmo modo, não é altamente verossímil, que seriam esses precisamente os seres que não se decompõem? Ao contrário, o que jamais é o mesmo, o que ora se comporta de um modo, ora de outro, é ou não é isso, o que chamamos composto?

- Segundo penso, é.

- Passemos, agora àquilo para onde nos havia encaminhado a argumentação precedente! Essa essência de cuja existência falamos em nossas interrogações e em nossas respostas, diz-se: comporta-se ela sempre do mesmo modo, mantém a sua identidade, ou ora se apresenta de um modo, ora de outro? Pode-se admitir que o igual, o belo, que cada realizador em si - o ser - seja suscetível de uma mudança qualquer? Ou acaso cada uma dessas realidades verdadeiras, cuja forma é uma em si e por si, não se comporta sempre do mesmo modo em sua imutabilidade, sem admitir jamais, em nenhuma parte e em coisa alguma, a menor alteração?

- É necessário - disse Cebes - que todas conservem do mesmo modo a sua identidade, Sócrates!

- E doutra parte, que dizer dos múltiplos, como homens, cavalos, vestimentas, ou quaisquer outros do mesmo gênero, e que são iguais ou belos - são sempre os mesmos aspectos às essências pelo fato de nunca estarem no mesmo estado nem em relação a si nem em relação aos outros?

- E dessa maneira - atalhou Cebes - eles nunca se comportam da mesma forma.

- Assim, pois a uns podes tocar, ver ou perceber por intermédio dos sentidos; mas quanto aos outros, os seres que conservam sua identidade, não existe para ti nenhum outro meio de captá-los senão o pensamento refletido, pois que os seres desse gênero são invisíveis e subtraídos à visão.

- Nada mais certo!

- Admitamos, portanto, que há duas espécies de seres: Uma visível, outra invisível.

- Admitamos.

- Admitamos, ainda que os invisíveis conservem sempre sua identidade, enquanto que com os visíveis tal não se dá.

- Admitamos também isso.

- Bem, prossigamos - tornou Sócrates. Não é verdade que nós somos constituídos de duas coisas, uma das quais é o corpo e a outra, a alma?

- Com qual dessas duas espécies de seres podemos dizer, pois, que o corpo tem mais semelhança e parentesco?

- Eis uma coisa que é clara para toda a gente: com a espécie visível.

- Por outro lado, que é a alma? Coisa visível, ou coisa invisível? Não é visível, pelo menos aos homens, Sócrates!

- Todavia, quando falamos do que é visível e do que não o é, fizemo-lo com relação à natureza humana? Ou talvez creias que foi a propósito de qualquer outra coisa?

- Foi a propósito da natureza humana.

- Portanto, que diremos da alma? Que ela é coisa visível, ou que não se vê?

- Que não se vê.

- Vale dizer, por conseguinte, que ela é uma coisa invisível?

- Sim.

- Logo, a alma tem com a espécie invisível mais semelhança do que o corpo, mas este tem, com a espécie visível, mais semelhança do que a alma?

- Necessariamente, “Sócrates” (Fedon, 78 b- 79 a, trad. J. Paleikat).


5. O movimento da alma: Para Sócrates a alma é causadora do movimento, por um poder não recebido de fora. No Fedro, diálogo platônico sobre a alma, a afirmação colocada na boca de Sócrates é precisa:

"Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo movido de dentro é animado, pois que o movimento é a natureza da alma" (Fedon 245 e).

6. A alma é imortal, porque incorruptível: Num primeiro argumento da imortalidade com base em sua natureza, alegou Sócrates, que, por ser espiritualidade e simples, em tal estado não pode corromper-se. Em sendo incorruptível, decorre ser imortal. Não se pode desfazer, nem mesmo após a morte do corpo. Efetivamente, a simplicidade tem por efeito formal excluir a corrupção, pois que a corrupção supõe a composição de partes.

7. A alma é imortal, porque é superior ao corpo: Marcada pela atividade vivificadora, hegemonia do querer e maior agilidade de pensar quando afastada da matéria entorpecedora; mas esta insistência cabe apenas enquanto dissertação sobre a razão geral da espiritualidade, ou simplicidade, de onde deriva tal superioridade.

"...quando a alma e o corpo estão juntos, a natureza manda a um obedecer e ser escravo e a outro que impede e mande. Pois bem, qual desses parece assemelhar-se ao que é divino e qual ao que é mortal? Não achas que somente o que é divino tem capacidade para mandar e que só o que é mortal é apropriado para obedecer e ser escravo?

- Penso como tu.

- A que se parece a nossa alma?

- É evidente, Sócrates, que a nossa alma se parece ao que é divino e nosso corpo ao que é mortal.

- Considere, pois, querido Cebes, se de tudo que acabamos de dizer, se deduz necessariamente que nossa alma se assemelha muito ao que é divino, imortal, capacitada para pensar, ao que tem uma forma única, simplesmente indissolúvel, sempre igual e sempre parecido a si mesma. Pelo contrário, o nosso corpo se parece ao que é humano, mortal, sensível, composto, dissolúvel, sempre em mudança e jamais semelhante a si mesmo. Há alguma razão que possamos alegar para destruir estas conclusões e provar que não é assim?

- Nenhuma, Sócrates.

- Se é assim, não convém ao corpo dissolver-se logo e a alma permanecer sempre indissolúvel, ou em um estado indiferente?

- Eis outra verdade.

- Vês, que depois da morte do nosso homem, sua parte visível, o corpo, que permanece exposto ante nossos olhos e que chamamos cadáver, devia dissolver-se. Não sofre, contudo, de imediato não se dissolve e permanece mesmo intato por algum tempo considerável, principalmente se o morto era formoso e se encontrava na flor da idade. Os corpos embalsamados, como no Egito, duram incólumes por um tempo considerável. Mesmo nos corpos que se corrompem, conserva-se sempre uma parte, como os ossos, os nervos e algumas outras partes da natureza que assim se podem dizer imortais.

- Não é verdade?

- Certíssimo.

- E agora, a alma, ser invisível que vai para um meio semelhante a ela mesma, excelente, puro, lugar invisível, ou seja, aos infernos, junto a um Deus cheio de bondade e sabedoria, - uma paragem a qual espero vá a minha alma, se assim quiser Deus, - uma tal alma, com tal natureza não faria mais do que abandonar seu corpo para desvanecer no nada como o creem a maioria dos homens? Para isto falta muito, meu amigo Simas e meu querido Cebes. Note melhor o que ocorre, então: se a alma se retira, pura, sem nada conservar do corpo, como a que durante a vida não manteve com ele nenhuma relação voluntária, para, pelo contrário, fugir dele, recolhendo-se em si mesma, meditando sempre, ou seja, filosofando bem e aprendendo com isso a morrer - não representa isto uma preparação para a morte?

- Sim, realmente é isso.

- Se a alma se retira neste estado, vai para um ser semelhante a ela, divino, imortal, cheio de sabedoria, junto do qual, livre dos seus erros, da sua ignorância, dos seus temores, dos seus amores desenfreados e de todos os males próprios à natureza humana, e goza da felicidade" (Fedon, 79 e 81 a).

8. Imortal porque se move a si mesma: a seguir o argumento de Platão apresentado no livro Fedro:

"Toda a alma é imortal, porque aquilo que se move a si mesmo é imortal. O que move uma coisa e é por outro movido, anula-se uma vez terminado o movimento. Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se e é para as demais coisas que se movem, fonte do início do movimento. O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo que se forma, forma-se de um princípio. Este principio de nada proveio, pois, que se proviesse de uma outra coisa, não seria princípio. Sendo o principio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente coisa que não pode ser destruída. Se o princípio pudesse desaparecer, nem ele mesmo poderia nascer de uma outra coisa, nem dele outra coisa, porque necessariamente tudo brota do princípio. Concluindo, pois, o princípio do movimento é o que a si mesmo se move. Não pode desaparecer nem formar-se, do contrário o universo, todas as gerações parariam e nunca mais poderiam ser movidos.

Pois bem, o que a si próprio se move é imortal. Quem isto considerar como essência e caráter da alma, não terá escrúpulo nesta afirmação. Cada corpo movido de fora é inanimado, pois que o movimento é a natureza da alma. Se aquilo, que a si mesmo se move, não é outra coisa senão a alma, necessariamente a alma será algo que não se formou. “E será imortal” (Fedro, 245).

9. A imortalidade decorrente da sua simplicidade: Outra prova da imortalidade da alma a partir de sua mesma natureza, considera-a indestrutível por ação a agir sobre ela a partir do exterior. Ponderou Sócrates que, sendo a alma simples, nenhuma causa consegue destruí-la. A seguir o argumento de Platão apresentado no livro República:

“Sócrates: - Não tem cada coisa o seu mal e seu bem”? A oftalmia é o mal dos olhos; a doença o mal de todo o corpo; a manga, o mal do trigo; a podridão, o da madeira; a ferrugem, o do ferro e cobre. Em uma palavra, quase nada há na natureza que não tenha seu mal e sua doença particular.
Glauco: - É verdade.

Sócrates: - Quando o mal ataca uma coisa, a deteriora, acabando por dissolvê-la e aniquilá-la?

Glauco: - Sem dúvida.

Sócrates: - assim, pois, cada coisa é destruída pelo mal e pelo princípio de corrupção que traz em si, de sorte que, se o mal não força para destruí-la, nada mais há que o possa fazer, porque o bem não pode produzir este efeito, nem tão pouco o que não é nem bem nem mal.

Glauco: - como poderia ser?

Sócrates: - Se, pois, encontramos na natureza alguma coisa cujo mal inerente a torna verdadeiramente má, que não pode porém dissolvê-la e destruí-la , não podemos afirmar desta coisa que naturalmente não pode perecer?

Glauco: - Parece muito lógico, que sim.

Sócrates: - pois não há nada que torne má a alma?

Glauco: - Sim, certamente; todos os vícios que mencionamos atrás: a injustiça, a intemperança, a covardia e a ignorância.

Sócrates: - Haverá um só destes vícios capaz de alterá-la e destruí-la? Cuidado que não caiamos em erro, supondo que, quando o injusto e insensato é surpreendido em delito, seja a injustiça, que é o mal de sua alma, a causa de sua morte. Eis, ao contrário, como se deve encarar a realidade. Adverte que a enfermidade, que é o mal do corpo, o aniquila pouco a pouco, o destrói e reduz ao ponto de não ter sequer a forma do corpo. E todas as outras coisas de que temos falado tem seu mal próprio, que se lhes adere e as corrompe e leve ao extremo de deixarem de ser que antes eram. Não é verdade?

Glauco: - Sim.

Sócrates: - Fazendo agora aplicação disto à alma, é verdade que a injustiça e os outros vícios, em que se alojando e fixando na alma, a corrompem e emurchecem, até que, conduzindo-a à morte, a separam do corpo?

Glauco: - De modo algum: isto não se dá a respeito da alma.

Sócrates: - Por outro lado, seria absurdo dizer que um mal estranho destruiria uma substância que seu próprio mal não é capaz de destruir... Abstenhamo-nos de dizer que nem a febre, nem nenhuma outra enfermidade, nem a degola, nem a retaliação do corpo em mil pedaços, nem o que quer que seja, pode dar a morte à alma, a menos que se faça ver que, pelos males que o corpo padece nestas circunstâncias, a alma torna-se mais injusta e ímpia.

E não toleremos que se diga que a alma ou outra substância perece pelo mal que sobrevêm a uma substância de natureza diferente da sua, se não concorre ali o mal que lhe é próprio...

“Logo, é evidente que o que não pode perecer, nem por seu próprio mal, nem pelo mal alheio, deve necessariamente existir sempre; e que, se existe sempre, é imortal” (República, 608 e ss.).


2. Análise da alma por Aristóteles
  
Observação: Aristóteles inventou o conceito 'análise' que significa 'dividir para compreender'.
   Diferentemente de Platão e Sócrates, Aristóteles, para compreender a alma, teoricamente, a dividiu, como exposto abaixo. O objetivo principal desta divisão foi identificar no homem a virtude intelectual agindo sobre a virtude moral de modo que fosse possível ao homem ser virtuoso nas suas ações na pólis.
   Para Platão, para que o cidadão agisse virtuosamente na pólis, ele teria que conhecer as virtudes que se encontravam no topós das ideias, ou seja, para agir com justiça, o homem teria que conhecer o que é justo, para agir corajosamente teria que conhecer o que é a coragem, etc. Estas ideias, justiça, coragem, etc., que são reais (porque são universais, perfeitas, imutáveis e efetivas) geram as ações virtuosas na pólis quando conhecidas através da alma. Esta é a doutrina socrático-platônica chamada de virtude-ciência, ou seja, "age justamente quem conhece a justiça", portanto quem não age justamente ignora o que seja a justiça. Um exemplo disso é o livro Críton: Sócrates não foge da prisão porque ele conhece a verdade: 'a justiça' que é expressa pela lei que o condenou.
   Por outro lado, Aristóteles advoga que, para que uma pólis feliz possa existir, seus cidadãos têm que praticar ações virtuosas, desse modo, portanto, as virtudes 'justiça' e 'coragem', por exemplo, são atingidas na ação inteligente dentro da pólis, ou seja, a virtude moral sob a ação do cálculo inteligente produzido pela virtude intelectual. Esta é a Ética de Aristóteles chamada de teoria do justo-meio; uma virtude é o justo-meio entre dois vícios, por exemplo: a coragem é o justo-meio entre a covardia (vício por falta) e a temeridade (vício por excesso).
   Quando Aristóteles analisa a alma humana, ele a divide em duas partes: irracional e racional. A parte irracional do ser humano tem algo que também tem nos vegetais e nos animais. As funções nutritivas têm em comum com os vegetais, as funções perceptivas têm em comum com os animais. Já a parte racional, que nos diferencia dos outros seres vivos, é dividida em duas: a virtude intelectual e a virtude moral. A primeira visa a vida contemplativa e a segunda a vida ativa na polis.

   O fim da polis é a felicidade, e, segundo Aristóteles, ela só é possível se o cidadão fizer bom uso de sua virtude racional (de sua racionalidade). O cálculo inteligente no uso da virtude intelectual é fundamental para busca do justo meio (virtude) na atividade política. É bom atentar para o fato que, a felicidade em Aristóteles é a felicidade da pólis, ou seja, o seu bom funcionamento e que em função disso os cidadãos atingem as suas felicidades individuais. O cidadão feliz é aquele que atua com as virtudes em benefício da pólis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário