segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


  Flávio Josefo, ou apenas Josefo (em latim: Flavius Josephus), também conhecido pelo seu nome hebraico Yosef ben Matityahu (יוסף בן מתתיהו, "José, filho de Matias") e, após se tornar um cidadão romano, como Tito Flávio Josefo (latim:Titus Flavius Josephus), foi um historiador e apologista judaico-romano, descendente de uma linhagem de importantes sacerdotes e reis, que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., pelas tropas do imperador romano Vespasiano, comandadas por seu filho Tito, futuro imperador. As obras de Josefo fornecem um importante panorama do judaísmo no século I.

Flávio Josefo  escreveu muito sobre João Batista, escreveu até sobre Pilatos que de acordo com a bíblia teve uma interação junto com ele, mas Josefo não escreveu nada sobre Jesus.

Todos sabem que Herodes Antipas foi um imperador romano malvado, matou a mulher dele, os filhos e tudo mais, sabemos disso pela biografia dele, existe uma biografia sobre ele, falando tudo sobre quem foi Herodes.
Mas essa mesma biografia não fala nada sobre perseguição por Jesus e morte de crianças (pela bíblia ele mandou matar as crianças que nasciam na época)
Em uma passagem da bíblia diz:

“E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém” Matheus 2:1

Só que Herodes morreu no ano 753 – Antigo calendário romano, que representa 4 anos A.C pelo calendário cristão. Como pode, Jesus ter vindo no tempo de Herodes, se Herodes morreu 4 anos antes dele nascer.



Imagem inline 2 Justo nasceu em Tiberíades, uma cidade da Galileia fortemente helenizada e era um homem erudito. Ele era próximo do tetrarca Herodes Agripa II  e se tornou um dos cidadãos mais importantes de sua cidade-natal.

Justo de Tiberíades foi um autor e historiador judeu, muito conhecido naquela época, ele escrevia sobre a religião do povo, sobre os judeus. Ele escreveu desde Moises até o ano 100 do século I, e também não escreveu nada sobre Jesus. Passou pelo ano 1, pelo ano 30, pelo ano 33, e foi até o 100 sem escrever nada sobre Jesus.

O Apocalipse foi escrito em 68 por João Evangelista, que também não existiu, é outro mito. Não se tem nada escrito sobre ele.
Mas de qualquer forma, ele não teria escrito sobre Jesus? No entanto, o apocalipse não fala absolutamente nada sobre Jesus.


Agora o mais interessante:

Imagem inline 3
Filon de Alexandria que nasceu vinte e cinco anos antes do suposto nascimento de Jesus e morreu no ano 50 depois da divisão, nasceu 25 a.c e morreu 50 d.c, então ele viveu exatamente na época que Jesus caminhou pela terra. Ele era conhecido na época como PAI do cristianismo, era um apologista cristão fervoroso, mas os textos dele só não entraram na bíblia, porque ele não escreveu sobre Jesus.
Pra terem uma idéia, Filon de Alexandria escreveu sobre Pilatos, aquele mesmo que conheceu Jesus, lavou as mãos e tudo mais, e mesmo assim não escreveu absolutamente nada sobre Jesus.

Os pergaminhos do Mar Morto, falam sobre as Cartas de Paulo, os relatos de João e até o apocalipse, e adivinha? Nada sobre Jesus.

Carta Aberta sobre o PL 368 de Regulamentação da Profissão de Historiador
Sociedade Brasileira de História da Ciência envia carta aos parlamentares sobre o projeto de lei nº 368, relativo à regulamentação da profissão de historiador. Confira o texto na íntegra.
A Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) vem, por meio do presente documento, manifestar suas preocupações quanto ao Projeto de Lei do Senado 368, de 2009, recentemente aprovado por essa casa legislativa, e que pretende regulamentar o exercício da profissão de historiador.
Em nossa análise, detectamos que o PL 368 apresenta alguns aspectos excessivamente restritivos, que podem constituir graves empecilhos para uma enorme parcela da comunidade brasileira de historiadores da ciência, e também pontos vagos e imprecisos, que tendem a gerar insegurança, dúvidas e conflitos com outras categorias profissionais. Consideramos que, na forma como foi aprovado, o projeto de lei não representa o desejado avanço em uma discussão antiga, nem contribui de forma equânime para fortalecer o exercício da profissão em suas múltiplas - e legítimas - apresentações.
Antes de passar à exposição de nossas preocupações concretas, e das sugestões e propostas que temos para superá-las, cabe um breve comentário sobre a SBHC e sobre a conformação do campo da História da Ciência em nosso País. Fundada em 1983, a entidade representa a expressão maior da institucionalização dessa área de conhecimento no Brasil. Promove a cada dois anos um encontro nacional, que hoje soma treze edições realizadas, a última contando com cerca de 800 participantes. Ao longo dos anos, a SBHC destacou-se no apoio ao desenvolvimento de pesquisas na área (favorecendo também a sua divulgação, através do periódico semestral que edita desde 1985) e na contribuição que teve para a formação de pesquisadores. Desde o início, caracterizou-se pela vocação interdisciplinar no que diz respeito à origem dos associados e à natureza das atividades que promove, considerando que a História da Ciência é praticada de forma absolutamente competente e profissional tanto por historiadores de formação, quanto por pesquisadores oriundos de campos como a filosofia, a sociologia, a antropologia, a educação e outros, além, é claro, das próprias áreas científicas e tecnológicas - competência e profissionalismo adquiridos ao longo de anos de experiência ou treinamento em História.
É de notar que, mesmo com formações originais tão diversificadas, o trabalho desenvolvido pela maior parte dos associados da SBHC é plenamente reconhecido como integrante legítimo do campo da História. O recente credenciamento da entidade no processo de indicação de membros do Comitê de Assessoramento da área de História do CNPq é, nesse sentido, um indício relevante. É igualmente importante registrar que uma vasta parcela dos historiadores da ciência que representamos, mesmo aqueles que não portam diplomas acadêmicos na área de História, são membros ativos da Associação Nacional de História (ANPUH), organizando simpósios temáticos e apresentando trabalhos em suas reuniões nacionais e regionais, e até coordenando o Grupo de Estudos de História da Ciência e da Técnica, reconhecido pela entidade.
Feita esta exposição inicial, passamos às nossas observações sobre o PL 368, que se concentram em quatro pontos:
1. Quem tem o direito de exercer a profissão de Historiador. Ao restringir o exercício da profissão aos portadores de diploma em História (graduação, mestrado ou doutorado), o PL 368 ignora a existência de profissionais de outras áreas que atuam no campo, muitas vezes há longo tempo e com grande competência, desenvolvendo trabalhos de fundamental importância para a área - em nosso caso, especificamente para a História das Ciências, mas certamente também para a História da Filosofia, História da Arte, História da Matemática, História do Pensamento Social, História do Direito, História da Educação etc. Esses trabalhos consistem em pesquisas plenamente reconhecidas como "históricas", na docência, em nível superior, de disciplinas especializadas, na orientação de estudantes, na organização de exposições e acervos e em tudo o mais que o PL 368 parece reservar apenas aos portadores de diplomas.
Nesse sentido, os Projetos de Lei 3759/2004 e 7321/2006, da Câmara dos Deputados, que tramitam conjuntamente e já foram aprovados em julho de 2012 pela Comissão de Constituição e Justiça da casa, são, em nosso entender, muito mais sensatos; nos artigos que definem quem pode exercer a profissão de historiador, com todas as atribuições de sua competência, ambos os projetos incluem um inciso de fundamental importância, como é o caso do PL 3759, em cujo artigo 2º lemos que:
"O exercício da profissão de Historiador (...) é assegurado:
(...)
IV - aos que, embora não diplomados nos termos dos itens anteriores, exerçam, comprovadamente, até a data de publicação da presente Lei, há 5 (cinco) ou mais anos, atividades próprias do Historiador" (com ligeira diferença de redação, o mesmo se encontra no PL 7321).
Vale lembrar que o próprio Informativo Eletrônico nº 5 da ANPUH, de abril de 2010 (que infelizmente não se encontra mais disponível na página da entidade), dizia em seu editorial: "Não somos contrários ao reconhecimento como historiadores, inclusive por parte da lei, com a proposição de uma emenda ao projeto aprovado no Senado, quando da tramitação na Câmara, daqueles profissionais com outras formações que militam há certo tempo, a ser definido em nossas discussões, no campo da história ou que possuem notório saber, adquirido através de uma prática durante anos, em nossa área do conhecimento."
Do ponto de vista da SBHC é fundamental, portanto, que a ANPUH efetivamente apoie esse reconhecimento, por parte da lei, do trabalho legítimo e competente que é desenvolvido por profissionais não diplomados na área, mas que atuam, de fato e de direito, como historiadores.
2. A questão específica do ensino de História. Em seu artigo 4º, inciso I, o PL 368 atribui privativamente aos historiadores diplomados (os únicos que o texto reconhece, afinal), o "magistério da disciplina de História nos estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior". Na educação básica, essa exclusividade é plenamente compreensível, ainda que, paradoxalmente, os milhares de professores de História formados nos antigos cursos de Estudos Sociais, que atuam há décadas em nossas escolas, muitas vezes sob as condições mais adversas, tenham sido simplesmente esquecidos (problema que seria resolvido pela adoção do inciso adicional presente nos projetos da Câmara). No caso do ensino superior, porém, além de não existir "a" disciplina de História, e sim uma multiplicidade de cadeiras especializadas, necessariamente imperam o princípio constitucional da autonomia universitária e o artigo 66 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (que reconhece o notório saber, autonomamente estabelecido pelas universidades, como condição para o magistério superior).
O fato é que, na forma como foi aprovado, o texto gera enorme insegurança, pois sugere que vários de nossos maiores historiadores da Ciência (e também da Arte, da Filosofia, da Educação, da Matemática etc., repetindo o que já apontamos anteriormente) não poderão ministrar nas universidades as disciplinas especializadas para as quais são, sem sombra de dúvida, os mais qualificados professores. Mais uma vez, é patente a necessidade de inclusão de um inciso adicional, que reconheça formalmente a competência dos historiadores não diplomados, mas reconhecidamente atuantes, e nos dirigimos à ANPUH pedindo seu apoio a essa medida.
3. As novas gerações de historiadores da ciência brasileiros. Nosso País conta hoje com um número crescente de programas de pós-graduação de caráter interdisciplinar. No caso específico da História da Ciência, há diversos cursos de mestrado e doutorado, muito bem avaliados pela Capes, que possuem essa natureza. Vários deles oferecem diplomas que envolvem o termo "História da Ciência", mas junto com expressões como "Ensino de Ciências", "Epistemologia" e outras. Ainda há casos de programas de pós-graduação interdisciplinares em que a palavra "História" não consta no título, mas em que se encontram fortes linhas de pesquisa em História da Ciência (e, de modo mais geral, há programas disciplinares, em áreas como a Arquitetura ou a Pedagogia, por exemplo, que há décadas formam excelentes historiadores da Arte ou da Educação).
É extremamente preocupante, para a SBHC, como esses profissionais serão tratados. Nos termos do PL 368, quem decidirá se os seus diplomas são aceitáveis para o registro profissional? A insegurança jurídica que será causada deve necessariamente ser prevenida desde já. Assim, instamos a ANPUH a apoiar a inclusão, no texto legal, de um mecanismo de acreditação de cursos de pós-graduação que possuam linhas de pesquisa ou áreas de concentração compatíveis com a formação histórica que todos desejamos. Esse mecanismo pode exigir a criação de um conselho profissional, tema que sabemos ser decisivo, mas trata-se do preço necessário para o justo reconhecimento de que a profissionalização em História também é adquirida em espaços interdisciplinares (ou naqueles em que, ainda que ligados a outras disciplinas, existe reconhecida tradição de pesquisa histórica).
4. As atribuições dos historiadores. Preocupa-nos, por fim, que o PL 368 (e, neste caso, também os projetos paralelos da Câmara) apresente como "atribuições do Historiador" (artigo 4º) atividades e tarefas que podem ser vistas, também, como competências de outras categorias profissionais, como museólogos, jornalistas, arquivistas, bibliotecários e outros. Cabe, ainda, perguntar quais os limites dos seguintes termos, que são empregados no texto: "temas de História", "serviços de documentação e informação histórica" e "temas históricos". Haverá necessidade de estipular um marco cronológico para designar quando um "tema" ou uma "informação" deva ser considerado "histórico"?
O PL 368 também estipula a obrigatoriedade de contratação de historiadores pelas "entidades que prestam serviços em História", mas não define o significado dessas atividades - basicamente, por confundir campo de conhecimento com mercado de trabalho. Consideramos que cabe a todos nós historiadores, em movimento coordenado pela ANPUH, uma reflexão mais aprofundada sobre as possíveis interpretações de termos tão vagos, tendo em mente que, nas nossas próprias fileiras, a definição teórica e epistemológica do "objeto da História" é saudavelmente polêmica e contestada.
Por todo o exposto, e no espírito da mais genuína colaboração, a SBHC pede à ANPUH atenção às preocupações que legitimamente apontamos, e aos mecanismos de superação que propomos. Gostaríamos de buscar os ajustes ao texto legal conjuntamente com a entidade, no âmbito da Câmara dos Deputados, e não em oposição a ela. Sabemos que seu apoio à regulamentação da profissão, ela própria uma bandeira histórica, não tem como objetivo arvorar uma certa categoria profissional em "dona do passado", mas sim contribuir para o bem público e fazer valer direitos. Essas importantes tarefas se esvaziam de significado, porém, se a lei - e o público - não reconhecer que inúmeros historiadores não são menos profissionais que outros por não portarem um diploma específico, e se esses mesmos historiadores, que a justo título merecem essa denominação, não tiverem seus próprios direitos equiparados aos dos diplomados.
Sociedade Brasileira de História da Ciência
(Diretoria e Conselho Deliberativo)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Instituto Estadual de Educação Marcílio dias

"Educando para a vida"

Um exemplo de Escola a ser seguido.

domingo, 9 de dezembro de 2012


Precisamos priorizar os processos de reforma, enquanto baixarmos as nossas cabeças, fugindo da realidade, estaremos apoiando a massificação e a alienação. Está na hora de abrir os olhos e a mente. 

Os professores, por José Luís Peixoto

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança.
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios - José Luís Peixoto
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios - José Luís Peixoto
O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.
Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.
Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.
Artigo de José Luís Peixoto, publicado na revista Visão de 13 de Outubro de 2011

sábado, 5 de maio de 2012


Queridos Alunos e Amigos:


Este Blog se destina à Educação, com prioridade para as disciplinas de Ciências Humanas. Abordaremos aqui História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Ciências das Religiões, e outras tantas relacionadas com estes temas. A proposta do Blog é divulgar o conteúdo estudado pelos alunos e também possibilitar um espaço para discussões e debates sobre os mais variados assuntos relacionados à nossa área. As postagens e comentários serão livres desde que voltadas para o conteúdo do Blog. Sintam-se à vontade para perguntar, criticar, sugerir e solicitar temas para as postagens. Este será um espaço de integração e interação entre alunos e professores. Fiquem com esta mensagem do Grande Mestre Jung:

"Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda."
(Carl Gustav Jung)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONCEITO DE SOCIEDADE, SOCIEDADES CULTURAIS E SUAS INFLUÊNCIAS NA CIÊNCIA MODERNA NOS SÉCULOS XVII E XVIII, REAL SOCIEDADE

CONCEITO DE SOCIEDADE, SOCIEDADES CULTURAIS E SUAS INFLUÊNCIAS NA CIÊNCIA MODERNA NOS SÉCULOS XVII E XVIII, REAL SOCIEDADE
Edson de Souza Couto[1]
RESUMO
           A análise das Sociedades Culturais dos séculos XVII e XVIII, principalmente na Inglaterra, desde suas formações, objetiva estabelecer as relações intrínsecas entre as diversas correntes de pensamento da época e fixar quais os elementos que aglutinaram divergências políticas e religiosas em torno de único propósito: “ Ciência Moderna”. A Real Sociedade será o resultado deste equilíbrio intelectual, onde opiniões e posturas pessoais dão lugar ao interesse coletivo e às mais nobres intenções.
Palavras-chave: Sociedades Culturais, Ciência Moderna, Real Sociedade, História Cultural.
Introdução
      Conhecer o pensamento humano talvez seja o maior desafio da ciência. O homem enquanto individualidade é um complexo quebra-cabeça formado de sentimentos, ideais, éticas,moralidades, culturas e verdades. Contudo existe uma dificuldade ainda maior, compreender este homem no seu meio, em sociedade, diante do amálgama de necessidades e de sonhos, de ambições e realidades.
      Todavia, foi no crepúsculo da Era da Razão e no alvorecer da Era da Luzes que se nos apresenta uma das mais surpreendentes sociedades civis, a Real Sociedade, engendrada e constituída pelos mais notáveis homens de sua época, mas que no entanto tinham motivos de sobra para serem inimigos.
       Em assim sendo propõe-se desvendar este mistério trazendo à luz, conceitos primordiais à compreensão dos agrupamentos sociais, suas inter-relações, suas nuances, sem contudo parecer um Tratado Sociológico à moda Durkheim, nem tão pouco enveredar-se pela Psicologia Social de Piaget, embora necessário beber destas fontes, irrefutavelmente.
1.    Sociedades e Sua Formação
      O homem é um ser social[2]. Desde a mais remota antiguidade até os dias de hoje necessita do outro para viver e compartilhar a vida. No princípio por questões de pura sobrevivência, como combater o frio pelo calor dos corpos, a caça em comum e a auto-proteção contra as ameaças externas. As relações de consangüinidade, de prole, de preservação da espécie, de afinidades formam a primeira unidade social, a família. A família é uma sociedade complexa e, portanto, nos exige conceituá-la. No entanto surge um paradoxo neste contexto, o homem é uma personagem única, individual, sem igual na natureza; poderá haver milhares de seres humanos e, no entanto, todos guardarão diferenças inquestionáveis. Estas diferenças vão se manifestar em todos os campos da identidade humana seja, psicologicamente, intelectualmente, fisicamente, etc. Nem citaremos a questão do gênero, assunto para outro momento.  Então porque se associar? Que elementos fazem ou exigem do homem a necessidade de se unir a outros homens, tão diferentes entre si? O que é uma sociedade? Qual sua finalidade? No que se assenta sua natureza? Quais suas influências na vida e na cultura do homem? O que ciência moderna obteve de benefício com as sociedades?
2.    Sociedade, Contrato Social, Estado, Nação
         O homem é um ser pensante que por ser frágil não sabe viver isolado, precisa da interação com seus semelhantes a fim de buscar o seu autoconhecimento, capta e retêm informações e portanto atinge níveis de consciência melhorando assim o convívio social.
        Socializa-se não apenas porque depende de outros para viver, mas porque os outros influenciam na maneira de conviver entre si mesmos e com aquilo que deseja e fazem (Eugênio Mussak)[3].
        Todavia houve um tempo em que estas associações tornaram-se tão importantes para vida humana que passaram a relacionar-se entre si, formando a idéia de Estado, ou seja, as sociedades juridicamente organizadas.
         Por outro lado se analisarmos a citação do epílogo esta sugere que nós somos, pela nossa diferente natureza, rebanho de animais dirigidos por uma irreconhecível e persvasiva predisposição biológica de associar-se a outros membros de nossa espécie. Esta colocação filosófica é também um axioma. No entanto, o problema está no processo cognitivo que faz com que as pessoas se auxiliem, reciprocamente ou não, ou até sintam-se renitentes ao ato de auxiliar. O homem como ser social está envolvido de alguma forma evidente de relacionamento com outros: dando suporte, demandando, ditatorial, justa, explorativa ou altruísta. Tais características poderiam aumentar ou diminuir o bem-estar social subjetivo das pessoas. A participação em grupos já tem sido objeto de pesquisa de muitos estudos.
           Um senso comum sobre “viver em grupos” tem sido estabelecido desde o início do século 20. Freud (1922), nos seus escritos sobre psicologia de grupos e na análise do ego, considerou que sendo membro de um grupo satisfaz necessidades e desejos psicológicos básicos. William McDougall[4], citado por Forsyth (1996), em um trabalho intitulado “Uma Introdução à Psicologia Social”, 1908, argumenta que um “instinto de rebanho” nos dirige para nos reunirmos em grupos. Segundo o autor, acredita-se que a dureza da vida no campo faz as pessoas emigrarem para as cidades. Porém, outros argumentos talvez invertam esta verdade. Talvez, a alta densidade populacional nas cidades, o vasto rebanho humano é que exerce atração naqueles que vivem fora dele.
             Outros autores entendem que o homem vive em sociedade como forma de suprir suas necessidades funcionais e de provisão social. Esta característica funcional evidencia que a vida em grupo seja preferida do que a solidão; grupos suprem-nos com recursos que nós necessitamos para uma existência social. Este conceito não se limita a uma necessidade física de estar com os outros. Shaver (1973) conclama que “provisão social” deve ser entendida entre intimidade psicológica, integração e envolvimento. Nesse sentido, Bale (1980) analisou dominância / submissão e seus aspectos negativos em grupos, e Weiss (1986) também solicita que haja distinção entre solidão social e emocional.
             Alguns autores têm sugerido modelos para analisar as funções da vida social e a necessidade humana para unir-se em grupos. Forsyth (1996) [5] apresenta um modelo teórico chamado de “as cinco grandes tradições nos grupos”:
• Pertencimento – Supre a oportunidade para contato e relacionamento com outros indivíduos em uma organizada rede social, promove comunicação geral e interação social entre as pessoas;
• Intimidade – proporciona oportunidade para um caloroso, suportável, amigável e solidário relacionamento com outros. Além de propiciar coesivo trabalho de grupo;
• Produtividade – Oferece oportunidade para a produção, aquisição, sucesso, controle de recursos e execução de tarefas orientadas;
• Estabilidade – Fornece aos indivíduos sentido de aumento de estabilidade ou decréscimo de ansiedade, diminuindo dúvidas pessoais, tensão, vulnerabilidade, insegurança e autopiedade; enquanto aumenta a auto-estima, relaxamento quanto à dureza da vida, satisfação pessoal e identidade (suporte social);
• Adaptabilidade – Oferece oportunidade para criatividade, refinamento de idéias, melhoria pessoal, aumento da capacidade de entender a si mesmo e os outros, melhoria das relações interpessoais (aprendendo habilidades sociais e sociabilizando-se como membro).
           De outra forma a Ciência Social, a Sociologia, nasce para tentar entender e explicar cientificamente esta nova realidade afirmando que o homem enquanto ser social partilha uma herança genética que o define como ser humano. A nossa estrutura cerebral permite-nos desenvolver a linguagem e interpretar os estímulos provenientes do meio.
          É na capacidade de o ser humano se adaptar ao meio e de transmitir ás gerações seguintes as suas conquistas, é na sua capacidade de aprender que reside a linha que distingue o ser humano do animal. O homem só se realiza como pessoa na relação com os outros, relação essa que tem vários níveis e assume múltiplas formas:     Universalidade; Sociabilidade e Intimidade.  
         Ao nível da intimidade a pessoa encara-se como um ser dotado de uma consciência de si, baseada na racionalidade e nas emoções que, embora seja individual e interior, só se constrói com base em relações significativas com outros seres humanos...
          Ao nível da sociabilidade a pessoa encontra-se como membro de uma sociedade organizada, necessitando de passar por um longo processo de socialização até que  possa assumir-se como um membro ativo da sociedade a que pertence. Não se pode dizer que a sociedade é uma mera soma de indivíduos, uma vez que cada indivíduo é, em si mesmo, um produto da cultura da sociedade a que pertence...

"Dentro de ti estão todos os que te viram como gente ou não, cada palavra que te dirigiram é uma luz ou uma ferida, às vezes, um clarão que cega  ou mostra que sim, outras vezes um muro de sombra e um rio que secou sem razão porque a palavra não pode semear-se no campo largo do contentamento fazendo crescer uma floresta morta de desencanta no que podia ser um jardim ou um campo verde sem principio nem fim"



"Não podemos viver isolados porque as nossas vidas estão ligadas por mil laços invisíveis"  Herman Melville





 
           A filosofia, a arte,a religião, a literatura, a ciência...são vias para alcançar a Universalidade, uma integração do individuo no COSMOS, no TODO, realizando-se como Pessoa, no encontro do que o transcende e pode dar um sentido à sua existência.



           Pensadores Modernos, a fim de justificar as causas das associações humanas apresentam duas Teorias. Do ponto de vista sociológico podemos citar as duas versões clássicas da teoria contratualista que são hoje expostas como simples curiosidade histórica, contudo que muito nos dizem.
           Em sua obra LEVIATHAN, Hobbes[6] afirmava que a princípio, durante a vida primitiva, os homens viviam isolados, em absoluta liberdade, que nessa interdependência, os homens se mostravam desprovidos de moral e extravasavam seu egoísmo violento num mundo prematuramente em guerra. Daí seu refrão: “homo homi ni lupos”. (o homem é o lobo do homem).
Para bloquear a autodestruição, os homens resolveram fazer um pacto – social em que todos abriam mão dos seus direitos, inclusive da sua liberdade, entregando–os à autoridade de um príncipe, - o LEVIATHAN. Assim, criava-se artificialmente, a sociedade civil, dirigida a ferro e fogo, pelo autoritarismo arbitrário, - por onde Hobbes esperava agradar a monarquia absolutista inglesa.
          Rousseau[7] descrevia um quadro oposto ao de Hobbes, para chegar à teoria de “contrato social”, - precisamente o nome de sua obra. Afirmava que o homem, originalmente, vivia livre e feliz, em contato direto com a natureza. Em certo momento, o homem reconheceu que a vida associativa lhe daria certas vantagens, embora prejudicasse sua liberdade e, conseqüentemente, sacrificasse sua felicidade. Para lograr aqueles benefícios, o homem teria feito àquele “contrato social”; mas, sua tendência é retornar ao estado primitivo e natural.
          Para Hobbes, o homem nascia mau: a sociedade é que o punha nos eixos, assim mesmo sob a autoridade de Leviathan.
Para Rousseau, o homem nascia bom e feliz: a sociedade é que o pervertia, tornando-o mau e infeliz - razão pela qual recomendava o governo liberal, em que as obrigações civis ferissem menos a liberdade de cada um.
Rousseau fez uma reflexão interessante (conquanto igualmente errada), a respeito da vivência de um casal. Assim, quando se diz que ele era anti-social, poder-se-ia indagar se recusaria a viver com uma mulher... Certamente não, - diria ele. Só que aí no seu entendimento, não há um fato social. Este se caracteriza pela existência de um bem-comum. Importante verificar que a formação das sociedades modernas levou em conta inúmeros fatores, desde o caráter natural, bem como psicológico, econômico, cultural, religioso, estratégico, etc.
           Os séculos XVI, XVII e XVIII sob forte influência dos resquícios da Renascença e efervescência do Iluminismo, principalmente na Inglaterra e na França, desempenharam papel importante no surgimento do pensamento científico e, no implemento daquilo que chamaríamos, mais tarde, de Ciência Moderna.          Nomes como Hipócrates[8], Galeno[9], Copérnico[10], Galileu[11], Grosseteste[12], Bacon[13], Occam[14], constituirão a base e os alicerces da das teorias científicas modernas. Tudo culminando com as descobertas de Isaac Newton[15], que foi um dos Presidentes da Real Sociedade, uma das mais prestigiadas academias de ciências da Inglaterra.
          Uma vez estreitada à relação existente entre a natureza humana e suas necessidades para bem viver, fica fácil compreender que o surgimento das diversas sociedades visava atender os desafios da vida entre os seres humanos. A formação da família como elemento central, unidade celular da sociedade, formadora, inclusive, da religião antiga[16], estrutura da base civilizadora, vai oferecer os elementos da constituição das pequenas comunidades, que em se organizando, através de um pacto social gerarão as vilas, os condados, as cidades e o Estado, propriamente dito, como sociedade politicamente organizada.
          O Estado Moderno emergirá das profundezas dos feudos pela formação da sociedade agrícola (camponeses), da sociedade religiosa (Igreja), da sociedade econômica (mercantilismo), da sociedade burguesa, da sociedade secreta (heresia), da sociedade militar (exército), da sociedade cultural (universidades), da sociedade real (nobreza), todas sob braço “protetor” e judicante, centralizador do Monarca, absoluto, senhor da vida e da morte, dono de tudo e de todos, o “Deus-Sol Encarnado”, o representante da vontade divina.
          A diversidade de interesses individuais, as posturas políticas, as necessidades sociais variam de Estado para Estado, de País para País, de Sociedade para Sociedade. Como explicar a formação de uma Sociedade Científica, num país cujos conflitos políticos entre monarca e parlamento, entre religiões católicas, protestantes e anglicanas que dividem as opiniões da Elite Cultural, da própria Nobreza, mas ao mesmo tempo une todas as mentes conflitantes em um objetivo específico : A Real Sociedade. Que estranho elemento de ligação interage neste amalgama intelectual? Por que as divergências políticas, religiosas são sublimadas para formação desta Sociedade na Inglaterra?
3.    Sociedades do século XVII e XVIII, Inglaterra            
           O objetivo geral deste projeto é investigar os elementos externos às relações político-religiosas conflitantes na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, que possibilitaram a formação da maior e mais prestigiada Sociedade Científica da Europa, a Real Sociedade, e se possível determinar as causas que uniram pessoas tão diferentes, que em situação normal, nunca se associariam.
            Lembre-se que diferentemente das outras Nações Européias, a Inglaterra adotou um sistema peculiar na formação do Estado Nacional. Enquanto na França, Espanha, Portugal, etc., imperavam um Monarca Absoluto, com poderes inquestionáveis e irrestritos, os ingleses pretendiam condicionar  o Rei ao Parlamento, instituto criado desde o século XII.
            O Parlamento Inglês com sua Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns, vai ser responsável pelas profundas mudanças no pensar político-econômico da Inglaterra, que desde Henrique VIII vinha enfrentando problemas com a Igreja Católica, graças aos devaneios amorosos do Rei. Via-se na antiga terra dos bretões grupos que defendiam uma Igreja Inglesa (Anglicana) e outros que defendiam a Igreja Romana. No entanto entre eles havia ainda os Puritanos (Calvinistas, protestantes radicais) que se opunham aos dois grupos anteriores, os Jacobitas (católicos e anti-protestantes) que apoiavam o retorno da Casa dos Stuarts.
            O panorama desenhado pela história inglesa tinha características próprias, quando governada por um rei católico, os protestantes, anglicanos, judeus e outros eram hostilizados e as relações com países também católicos eram estreitadas mesmo quando se tratava de antigos inimigos políticos como Espanha e França. Contudo quando alcançava o poder um Rei Protestante, invertiam-se as situações a perseguição recaia sobre os católicos e seus aliados.
             Porém outro fator que interferia diretamente nas relações de poder na Inglaterra, impulsionados pela idéias iluministas, muitos ingleses acreditavam que o regime monárquico absoluto deveria dar lugar ao regime Parlamentarista, mais democrático e justo. As sociedades culturais, as elites, a nobreza, a burguesia, os ruralistas dividiam e divergiam de opiniões. Note-se que estas questões não surgem nos séculos XVII e XVIII, são anteriores a tudo isto e fruto de reformas sociais que vem ocorrendo desde disputas dos Yorks, Lancasters, Plantagenetas, Tudors, Stuarts[17].
            Neste palco se desenrola o teatro da vida, e de ato em ato, e de cena em cena, vão se delineando as matizes da nova peça, do novo quadro, da nova sociedade.  
            Os Stuarts foram os primeiros reis do Reino Unido, Rei James I, de Inglaterra que começou o período quando também já reinava na Escócia como James VI, e juntou pela primeira vez os dois tronos em uma só monarquia.
            A Dinastia dos Stuart reinou na Inglaterra e Escócia por 111 anos, cobrindo praticamente o século XVII, um período extremamente agitado politicamente, de muita instabilidade civil interna, de pestilências e guerras.
           Apesar de certa evolução cultural, foi uma idade de intenso debate religioso e políticas radicais que mergulhou a nação em uma sangrenta guerra civil (1642-1649) que interrompeu este período monástico por mais de uma década (1649-1660), entre a Coroa e o Parlamento, os Cavaleiros e os Roundheads[18], resultando na vitória dos parlamentares de Oliver Cromwell (1599-1658) e a execução dramática do Rei Carlos I (1649) e a instalação de um pioneiro regime republicano, a Commonwealth[19], e o herdeiro do trono Carlos II exilado.
          Com a derrota dos realistas escoceses (1651), a guerra civil terminou, o Parlamento foi dissolvido (1653) e assumiu o governo como Lord Protetor da Inglaterra, da Irlanda e da Escócia, partilhando o poder com um conselho tutelar (1653-1658). Seus sucessores, especialmente seu filho Richard (1626-1712), não tiveram competência suficiente para evitar confrontos entre o parlamento e as forças militares e a monarquia foi restaurada com a volta de Carlos II do exílio e sua coroação como soberano do Reino Unido, dois anos depois. Outra guerra civil estourou por ocasião da sucessão de Jaime II, a Revolução Gloriosa, quando William e Maria de Orange  ascenderam o trono como os monarcas em comum e defensores de Protestantismo, seguidos pela Rainha Ana, o segundo das filhas de James II. Com a oficialização do Ato de Determinação (1701), segundo o qual, só protestantes pudessem assumir o trono, decretou-se por antecipação o fim dos Stuarts na coroa.
          Justamente, neste período, onde e quando as circunstâncias parecem menos favoráveis ao surgimento de boas obras, é que um fato inusitado passa a operar, sob a influência de Sir Robert Moray[20], homem forte nas relações políticas entre Escócia, Inglaterra e França, começam ser escolhidas e convidadas pessoas de renome acadêmico, como cientistas, alquimistas, astrólogos, engenheiros, físicos, matemáticos, religiosos, para fazerem parte de uma sociedade em formação que tinha apoio do próprio Rei Carlos I[21].
          O fato que mais causa estranheza neste evento, certamente, não é as diferenças de pensamento e linhas científicas, por mais ecléticos que possam parecer às pessoas envolvidas, mas sim a evidência de que muitas delas eram inimigas mortais politicamente. Dentre os nomes oferecidos estavam apoiadores do regime monárquico de Carlos I e seus arqui-rivais, protegidos de Oliver Cromwell.
           Revendo alguns nomes desta lista: Reverendo John Wilkins (inventor-parlamentarista), Visconde William Brouncker (matemático-monarquista), Robert Boyle (físico-monarquista), Conde de Kincardine Alexander Bruce (trabalhava com minas de carvão e sal,monarquista), Sir Robert Moray (negociador político-monarquista), Sir Paul Neile (ótico-monarquista), Dr. Jonathan Goddard (médico-parlamentarista), Dr. William Petty (estatístico-médico e químico, parlamentarista), Sr. William Ball (Cientista amador, monarquista), Sr. Lawrence Rooke (geômetra-monarquista), Sir Christopher Wren (cientista-arquiteto, monarquista), Sr. Abraham Hill (comerciante rico, monarquista), Elias Aschmole (alquimista, astrólogo,monarquista). Não é preciso ser “expert” para perceber os antagonismos políticos culturais destas pessoas e verificar que o convívio e o diálogo seriam dificultosos, salvo se houvesse algum elemento capaz de uni-los passando por estas diferenças.
          Toda preocupação inicial que se teve com a abordagem sobre as sociedades visava preparar terreno para esta constatação referida acima. O paradoxo das diferenças necessita um elo, um “elo perdido”, para que se faça a ligação de mundos diferentes dentro de uma mesma realidade. Este enigma somente pode ser desvendado quando conhecemos a concepção de sociedade e permitimos uma viagem mental por todas as vias de ação do homem. A transparência das idéias possibilita ver o “outro” lado, mas não a si mesma. Somente diante do desafio, das vicissitudes ousamos criar mecanismos capazes de satisfazer nossas carências. “Tudo que existe foi criado pela mente humana, salvo aquilo que sempre existiu”.
            A Real Sociedade, sociedade de cunho científico, nascida em 1660, na Inglaterra e difundida pelo mundo moderno, que abarcou em sua nave as maiores e melhores mentes da época, tinha um segredo. Este segredo era a “chave oculta” que abria a porta de outra sociedade, mais antiga, misteriosa, silenciosa. Uma sociedade que tinha como característica eliminar diferenças, fazer todos iguais.
           Assim como na Real Sociedade, seus membros eram escolhidos, criteriosamente, e submetidos à aprovação dos demais membros. Porém os quesitos a serem preenchidos por esta sociedade discreta, eram insólitos. Opção religiosa, orientação política, situação social eram valores de somenos importância.
          Esta sociedade nascida do sangue de muitos, cuja  origem remonta a Escócia, precisamente em Roslim[22], antes de 1440, só exigia alguns requisitos de seus futuros membros, que fossem “livres, maiores de idade e de bons costumes”.
          Contudo tinha uma regra básica e inquestionável para permanência de seus membros dentro do quadro social, restava proibida qualquer discussão de natureza religiosa ou política. E foi evidentemente esta norma que permitiu que pessoas tão diferentes no pensar pudessem fundar uma organização com fins científicos sem desviar sua atenção para dogmas religiosos ou para cores partidárias. Os membros da Real Sociedade, antes de tudo e acima de tudo eram francos-maçons[23].
         O que mais  agrada pensar é que o homem se une a outros homens com o propósito de constituir “uma força”, chamada sociedade, para atingir os objetivos comuns, e quando esta se apresenta ineficaz ou insuficiente, ela  busca dentro de outras sociedades os elementos necessários a se auto-complementar. As sociedades culturais dos séculos XVI, XVII e XVIII alimentaram-se de fontes mais antigas para suprir e romper os grilhões da intolerância política e dos ranços religiosos, imbuídas de um propósito maior. Se nos dias de hoje gozamos de conforto e felicidade e conhecemos as possibilidades de uma vida melhor devemos a um desconhecido chamado “Sir Robert Moray”, que como maçom, investido de valores morais, e revestido uma vontade ferrenha, vislumbrou o futuro como uma realidade exeqüível, sonhou e fez o sonho acontecer. Ele não era cientista, nem um gênio, nem era um visionário ou profeta, era simplesmente um franco-maçom.           

4.    Referências
A CIDADANIA NA INGLATERRA / 2002 CEE
ADONIAS FILHO, Ricardo Coração de Leão / 1983 Tecnoprint
BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX / o espetáculo da pobreza / 1982 Brasiliense 
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Ed. Martin Claret, São Paulo, 2007
DEFOE, Daniel, Um diário do ano da peste / 2002 Artes e Ofícios
FRASER, Antonia, As seis mulheres de Henrique VIII / 1996 Record 
GERBER, Lambert, Historia da Inglaterra / 1941 Editorial Labor
HARTLEY, Harold. The Royal Society, Its Origins and Founders, Ed. Sir Harold Hartley
HILL, Christopher, O eleito de Deus / Oliver Cromwell e a Revolução Inglesa / 2001 Companhia das Letras
KEIGHTLEY, Thomas. Sociedades Secretas da Idade Média. Ed. Madras, São Paulo, 2006
LOMAS, Robert. A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna, O Colégio Invisível, Ed. Madras, São Paulo, 2007
LYON, Henry. The Royal Society, 1660-1940. Inglaterra
MACNULTY, W. Kirk. Maçonaria, Uma Jornada por Meio do Ritual e do Simbolismo. Ed. Madras. 2008. São Paulo.
MANTOUX, Paul, A revolução industrial no século XVIII / estudo sobre os primórdios da grande industria moderna na Inglaterra / 1988 Ed. UNESP / Hucitec
PLAIDY, Jean, Assassinato real / a vida e a morte de Ana Bolena na corte de Henrique VIII / 2000 Record 
PURVER, Margery. The Royal Society, Concept and Creation, Inglaterra.
RESTON, James, Guerreiros de Deus / Ricardo Coração de Leão e Saladino na Terceira Cruzada / 2002 Imago
ROBINSON, John J., Nascidos do Sangue, Os Segredos Perdidos da Maçonaria. Ed. Madras. 2005. São Paulo
STEVENSON, David. As Origens da Franco-Maçonaria. Ed. Madras, São Paulo, 2006.
THOMPSON, E. P. Os românticos / a Inglaterra na era revolucionária / 2002 Civilização Brasileira
ZIERER, Otto, Inglaterra / 1986 Circulo do Livro








1Acadêmico do Curso de Licenciatura em História, pela Ulbra/Torres, formação em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-RS, graduação em Tecnologia de Informação, com especialização em Redes Sequenciais, CCNA1, pela Unisul/Araranguá e Cisco Networking Academy Program. Pesquisador em Ciências Antigas, História das Religiões, Mitologia, Hermetismo. Terapeuta Holístico.
[2] Aristóteles, filósofo grego, século V a.C.
[3] Eugênio Mussak, Educador e Consultor de Empresas, notabilizou-se por discorrer sobre temas como Cultura e Sociedade/Saúde e Qualidade de Vida.
[4] William McDougall (1871-1938) foi um psicólogo experimental e teórico de largo espectro de interesses.
[5] Forsyth, J. P., & Eifert, G. H. (1996a). Systematic alarms in fear conditioning I: A reappraisal of what is being conditioned. Behavior Therapy, 27, 441-462.
[6] Thomas Hobbes, Leviatã, obra publicada em 1651 que trata da Teoria do Contrato Social.
[7] Jean Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo, escritor e compositor francês, com sua filosofia política influenciou  a Revolução Francesa, bem a Revolução Americana. Pensador político, sociológico e educacional moderno.
[8] Hipócrates de Cós (460-370 a.C.) considerado o Pai da Medicina, famoso por seu juramento usado até hoje pelos formandos de Medicina.
[9] Galeno (129-200 a.C.) médico romano dos gladiadores, desenvolveu estudos da fisiologia dos animais, influenciou consideravelmente a medicina árabe.
[10] Nicolau Copérnico, 1543, publicou  a “De revolutionibus orbium coelestium” onde contestava a Teoria Geocêntrica de Aristóteles.
[11] Galileu Galilei,  polímata (físico, matemático, filósofo, astrônomo) italiano, aperfeiçou o telescópio e desenvolveu a Teoria Heliocêntrica, confirmando as bases teóricas de Copérnico. Em 1633 enfrentou a Santa Inquisição por suas idéias (heréticas) tendo que abjurá-las para não ir à fogueira.
[12] Robert Grosseteste (1175-1253) religioso e matemático: “o mundo só podia se compreendido pela matemática”.
[13] Roger Bacon (1214-1294) também religioso católico, estudou em Oxford, desenvolveu estudos em ótica, matemática e alquimia. Ficou notável pelo seu método empirista de observação cuidadosa.
[14] Gulherme de Occam (1288-1347) defendeu a idéia da simplicidade das hipóteses, conhecida como “Navalha de Occam”.
[15] Isaac Newton,(1643-1727) filosófo, matemático, físico, alquimista, teólogo, formulou a Teoria da Gravitação.
[16] COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga,Ed. Martin Claret, São Paulo, 2007.
[17] Stuarts, Dinastia Inglesa de Reis Católicos que sobrevieram aos Tudors cuja última representante foi Elizabeth que não deixou herdeiros, vindo a herdar o trono da Inglaterra os descendentes de Maria Stuart, Jaime VI da Escócia ( Jacob )
[18] Roundheads foi o apelido dado aos apoiadores do Parlamento durante a Guerra Civil Inglesa. Também conhecidos como parlamentaristas, eles lutaram contra o Rei Carlos I e sua Cavaliers (monarquistas) que reivindicou o poder absoluto e o direito divino do rei.
[19]Commonwealth é um termo inglês tradicional para uma comunidade política fundada para o bem comum. Historicamente, tem sido por vezes sinônimo de "república".
[20] Sir Robert Moray, escocês, 1º maçom iniciado na Inglaterra, serviu na Guarda Escocesa de Luis XIII, prestava serviços ao Cardeal Richelieu, ajudou o Rei Carlos I, da Inglaterra em várias ocasiões. Nitidamente monarquista.
[21] Lomas, Robert. A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna, pg. 42-44.
[22] A Maçonaria e o Nascimento da Ciência Moderna, Robert Lomas, pg. 99.
[23] Francos-maçons: Expressão que denomina os membros de uma sociedade secreta,chamada “Franco-Maçonaria”, também  chamados de “Pedreiros Livres”